O batom perdido
A última vez que estive em São Paulo, fui participar da IV Conferência Brasileira de Cores. O dresscode do dia era vinho — e eu tinha levado o único batom que se aproximava do tom e que estava na minha cartela de cores. Um daqueles que já saiu de linha, da cor exata da minha cartela e que me deixava bonita sem precisar de esforço.
De manhã, me arrumei pois já tinha ido com todo o look escolhido. Passei o batom, finalizei o cabelo, me olhei no espelho e pensei: “tô gata!”.
A cor, o conjunto, o humor — tudo parecia no estar cooperando para um lindo dia.
Fui para o evento, participei das palestras da manhã e, no intervalo, fui ao hotel para fazer o check-in. Quando retornei à Conferência, no período da tarde, percebi que o batom não estava mais na bolsa. E foi aí que o dia começou a mudar de cor.
Passei boa parte da tarde tentando disfarçar a irritação de ter perdido algo que, racionalmente, não era importante, mas, emocionalmente, parecia ser.
Entre uma conversa e outra, minha cabeça voltava pra ele.
“Será que caiu no uber?”
“Será que deixei na pia do hotel?”
“Será que coloquei na mala sem querer?”
E, sem perceber, deixei de aproveitar coisas boas — palestras, encontros, trocas — porque estava ocupada lamentando um batom.
O que me incomodava não era só a perda do objeto, mas o fato de ele ser insubstituível.
A cor exata não existia mais.
E, de algum modo, parecia que o batom representava algo maior: o controle, o acerto estético, a coerência com a imagem que eu havia planejado.
Perder aquilo foi como perder um pedaço de “tudo no lugar”.
Mas, enquanto voltava pro hotel no fim do dia, me dei conta de algo bem simples: o batom tinha ido embora e várias coisas do dia também.
A balança emocional das perdas
A gente tende a dar muito mais importância ao que perde do que ao que ganha.
É como se o cérebro fosse programado para pesar o que falta e diminuir o que sobra.
Perdemos um objeto e esquecemos quantas coisas boas ainda temos.
Recebemos dez elogios, mas lembramos de uma crítica.
Vivemos uma semana boa, mas reclamamos do dia ruim.
E é curioso como as conquistas, quando chegam, são rapidamente substituídas pela próxima meta. A alegria dura pouco, a insatisfação é duradoura.
Não porque sejamos ingratos, mas porque é mais fácil lamentar do que reconhecer.
Celebrar exige pausa. E pausa exige consciência. Lamentar, por outro lado, vem automático.
A ilusão de controle
O que eu realmente perdi em São Paulo não foi um batom. Foi a ilusão de controle.
A ideia de que, se eu me planejo, tudo sai como imaginei.
E que, se algo escapa, o erro é meu.
Esse tipo de pensamento é perigoso — e comum.
A gente quer prever, ajustar, garantir.
Mas a vida insiste em lembrar que nem tudo depende da gente.
E quando algo sai do roteiro, por menor que seja, é como se uma parte de nós precisasse provar que isso não deveria ter acontecido.
Como se houvesse uma lógica que nos poupasse dos imprevistos.
Só que não há. Nem para batons, nem para planos maiores.
O ruído da falta
Percebi, naquele dia, o quanto a mente se apega ao que falta.
E como esse apego rouba espaço das experiências que ainda estão acontecendo.
Enquanto eu procurava o batom, o evento seguia, as pessoas conversavam, as cores apareciam, as ideias se multiplicavam. Mas eu muitas vezes não estava ali. Eu estava na falta. E a falta tem um poder estranho: ela suga nossa presença.
A gente se distrai tentando entender onde, como e por que algo se perdeu. E, no fim, perde algo maior: o agora.
O exagero da perda
Um batom perdido não muda nada na minha vida, porém a reação a isso muda muito, principalmente sobre o quanto eu deixo detalhes decidirem o humor do meu dia.
A perda parece mais intensa que o ganho — talvez porque nos obriga a olhar para o que não controlamos.
E o ser humano tem uma certa resistência a lidar com o incontrolável.
Mas o fato é que, enquanto tentamos entender o que se foi,
a vida continua acontecendo em volta — colorida, viva, pulsando.
Só que a gente está ocupada demais lamentando o que não tem mais cor.
Lamentar dá mais trabalho do que celebrar
Com o tempo, entendi que lamentar é mais confortável do que celebrar.
Lamentar é quase automático.
Celebrar exige presença, percepção, intenção, não é automático.
O contrário disso é o lamento crônico. Aquele modo mental que se instala e faz com que cada pequena perda vire um símbolo de injustiça pessoal.
O batom virou metáfora de outras perdas.
Das vezes em que algo saiu do roteiro.
Das vezes em que o que estava “perfeito” desandou por um detalhe.
Das vezes em que eu demorei a aceitar que nem tudo precisa ser recuperado para que a vida siga.
A gente precisa escolher comemorar o que deu certo. E isso nem sempre é fácil, porque o cérebro insiste em amplificar a perda. Mas, quando a gente se treina a olhar para o que ficou, a vida muda de textura. Passa a ter mais leveza do que peso e mais cor do que sombra.
Moda, imagem e o que fica depois do espelho
Percebo o quanto essa dinâmica se repete na forma como olhamos para a nossa imagem.
As mulheres costumam ver primeiro o que falta: o cabelo que não ficou bom, a roupa que não serviu, o batom que sumiu. E esquecem de olhar o que ficou lindo, o que funciona, o que ilumina.
A relação com a imagem é um espelho da relação com a vida. Quando aprendemos a aceitar que nem tudo vai estar perfeito, descobrimos que o que mais importa é o que permanece — a essência, o olhar, a presença.
As microperdas do cotidiano
Perder é inevitável.
E a vida adulta é, basicamente, uma coleção de pequenas perdas: tempo, energia, pessoas, fases, certezas. Só que há uma diferença entre viver o luto dessas perdas e viver em função delas.
O luto é honesto. É quando a gente reconhece o que se foi, sente, processa e segue.
A lamentação crônica é repetição — é quando a gente revive a perda todo dia, mesmo que o fato já tenha passado há muito tempo.
E esse hábito custa caro. Rouba alegria, rouba leveza, rouba atenção.
A parte bonita dessa história é que, quando a irritação passou, percebi o tanto de coisa boa que ficou daquele dia. As conversas, as risadas, os encontros.
As cores — tantas cores — e a sensação de estar num espaço que celebra justamente o que me move: a expressão, a imagem, o significado por trás da estética.
A cor estava em todo lugar, menos na minha boca.
Mas isso não fez o dia menos colorido.
Perder sem se perder
Hoje, se eu lembrar daquele batom, ainda sinto uma pontinha de pena — mas nada que me roube o dia.
Ele virou símbolo de algo que aprendi tarde: a leveza de não se perder junto com o que se vai.
A vida é feita de trocas. Algumas justas, outras não.
Mas, de um jeito ou de outro, tudo o que vai abre espaço para algo que chega.
E, com o tempo, a gente entende que o que realmente importa não é recuperar o que sumiu, e sim não deixar que a perda nos desconecte do presente.
Pelo menos agora tenho espaço na minha necessaire para outro batom!
No fim das contas
No fim, o batom vinho ficou em São Paulo.
E eu voltei pra casa pensando que o que a vida pede da gente, quase sempre, é só presença — mesmo quando alguma coisa sai do lugar.
Não sei se algum dia vou encontrar um batom igual àquele. Mas sei que não preciso.
Talvez seja isso que a maturidade ensina: que nem tudo precisa ser recuperado.
Algumas coisas só precisam ser reconhecidas — e deixadas ir.
E esse sentimento só depende de um olhar, o que reconhece o que ficou, mesmo quando algo se vai.
Até a próxima newsletter.
Beijos, Iza

